O texto que se segue não é inédito. Ele foi escrito e publicado logo após a morte de Michael Jackson, em 2009.
Porém, vítima de uma alucinada passagem minha pelo meu próprio blog, foi excluido por engano!
Mas ele não pode ficar de fora pois esprime muito do meu objetivo em manter esse pequeno espaço de/para reflexão e discussão. Infelizmente (mesmo!) não posso "re" publicar os comentários que surgiram a partir dele, parte da grande estima que cultivo por esse escrito.
Mesmo assim, registro-o novamente caso ainda possa interessar a mais alguém, além de mim mesma.
EM NOSSOS DIAS
"Quase sete horas da noite. O carro avança pelas principais avenidas da cidade rumo à faculdade onde meu irmão mais velho, o Pipo, cursa geografia. Com o rádio ligado, ouvimos no fim do programa “Top Ten” as primeiras colocadas do dia. As mais tocadas! Considerando que estamos na primeira metade dos anos 80, se não tocar “Thriller” toca “Billie Jean” e, se não esta, o que vai rolar é “Beat it”. E se nenhuma dessas, alguma outra... Do Michael. Claro!
Enquanto trabalhava, acompanhei o “showneral” do Michael Jackson pela internet: olhos na Excel e ouvidos no que tocavam. Quando ouvi o guitarrista John Mayer tocando “Human Nature” (uaaaaaaaaau!!!) fui imediatamente transportada pra esse cenário descrito no parágrafo acima. Instantaneamente.
Eu e meus irmãos sempre gostamos muito de música e a morte de M.J. foi uma experiência muito emocional pra mim em vários sentidos: por me fazer lembrar de momentos esquecidos e marcantes de minha infância e por sentir a perda de alguém muito talentoso que fez parte dessa história com a trilha sonora (aliás, com a trilha áudio visual! E nisso foi inovador). Mas não só por isso...
Acho que vou voltar pro orkut só pra criar a comunidade: “Eu tinha medo do clipe de Thriller“ (já deve existir). Com seis anos de idade, eu tinha medo... Mas não desgrudava os olhinhos da televisão! E depois ia pra garagem com meu irmão, André, e os amigos dele pra tentar (em vão) fazer o “moonwalk”. Divertido...
Já há algum tempo não acompanhava mais a carreira do Michael. Fiz parte da multidão de pessoas que se chocou com sua aparência cada vez mais bizarra e as denúncias de pedofilia. Sem contar nas esquisitices com os filhos.
Detesto as “psicologices” baratas que surgem em momentos críticos, ainda mais quando se trata de uma celebridade. É impressionante como as pessoas se sentem donas da explicação definitiva sobre o que acontece com o outro com tremenda facilidade e simplicidade, como se o ser humano (ou a natureza humana, como diz a canção) não fosse complexo e contraditório (Álvaro: acho que entendi o que é ser um idiota da objetividade!). Fizeram (fizemos) muito isso com esse cara chamado Michael Jackson. E pior de tudo! Vou continuar fazendo isso agora! Sim, porque vou dar, brevemente, meu parecer sobre ele (Oh, céus...).
Depois de assistir a uma longa entrevista que ele deu fiquei com a nítida impressão de que ele rompeu com a realidade. Não como um psicótico... Quase isso... Talvez um outro processo (eu avisei que o ser humano é complexo, né?).
“Thriller” saiu das telas e foi pra “Never Land”.
Segundo o Psicodrama, o desenvolvimento emocional do homem ocorre a partir do surgimento do que é chamado de ”brecha entre fantasia e realidade”. Hã? Explicando toscamente, é quando a criança começa a distinguir a realidade da fantasia. Essa brecha é fundamental para qualidade e saúde de nossos relacionamentos e de nossa identidade.
Acho que Michael rompeu com essa brecha. Por que apanhava do pai? Quer saber? Pouco importa o porquê... Esse lance do “porque”, do “porque”, do “porque” é pra psicanalista. Sou psicodramatista. Sinto que ele “pirou” na onipotência por poder dizer “I’am Michael Jackson!”. Porque só ele podia dizer isso passou a dizer também “I’am Peter Pam!”. E o entrevistador não riu! Eu no lugar dele também não riria por ver que M.J. acreditava no que estava falando.
Mas porque será que decidi correr o risco de passar por uma idiota da objetividade (seja lá o que for isso) “psicologisando” sobre M.J.?
Porque com todos esses percalços (compreensíveis ou não) ele foi mais que um artista talentoso.
Gilberto Gil disse no encarte do cd "Tropicália 2", de 93: "Tudo em Michael Jackson é feito de matéria pop: sua grande música, sua grande dança, sua vida mínima. Em nossos dias só ele tem a mesma carga de popismo de Marylin ou Elvis ou Elisabeth Taylor. Perto dele, Madonna parece uma mera teórica."
Tanto seu talento quanto seu escândalo compõe um ícone cultural contemporâneo. M.J. conta muito sobre nossos dias... No mundo pós moderno (ainda estamos no pós modernismo ou já mudamos de Era e ninguém me avisou?) o que vale é o espetáculo (imagem é tudo!). E de espetáculo ele entendia muito bem. Foi um dos inventores dele!
Concordo com o que meu irmão André disse: M.J. se tornou rei do pop nos EUA. Aí ele foi pra Inglaterra e lá ele também era rei do pop. Então, foi pra Rússia, pro Japão, pra Argentina, pro México e pra África do Sul. Em todos esses países, ele foi o rei do pop. Diante disso, uma pergunta, então: se você se tornasse um grande espetáculo aclamado por onde quer que fosse, você jura que não se tornaria uma pessoa estranha?
A morte de M.J. foi uma experiência muito emocional pra mim menos por se tratar de um músico talentoso e mais porque um ícone do meu tempo morreu. Tristemente... Um tempo acabou. Não acho que havia acabado com sua reclusão em “Never Land”, como dizem alguns, afinal, a “vida mínima” é parte do show... De nossos dias.
Num tempo tão permeado por diretrizes midiáticas, “quem/o que/quais” será o próximo?
Façam suas apostas!"