quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Focinho de porco não é tomada - considerações e irritaçãos sobre o tema psicoterapia.


Vou falar uma coisinha...


Como psicóloga que atua em atendimento clínico há quase 10 anos (meu Deus! O tempo passou...) e como usuária (feliz!) de psicoterapia, algumas divagações sobre o tema me dão “nos nervos”! Algumas delas escuto aí pela vida... Outras entre irmãos... E ainda outras até mesmo em família!

Por exemplo? Vou citar algumas delas para te ajudar a entender o que digo.


“O psicólogo fez a cabeça de fulano!”

Especialmente pais e/ou pessoas muito rígidas amam dizer isso de quem faz psicoterapia, afinal, mudanças para esses, frequentemente, incomodam!

Psicologia é ciência e não manipulação. O psicólogo acompanha a pessoa em suas próprias tomadas de decisão utilizando-se, para tanto, de seu conhecimento científico (que pode variar conforme sua linha de atuação).

O que o psicólogo oferece ao paciente é um relacionamento – terapêutico - que promova, vamos assim dizer, “cura” /melhoras e autoconhecimento. O psicólogo, por si só, não tem super poderes, nem mesmo o de cura. Os avanços do tratamento dependerão, sempre, do relacionamento que se estabelece, ou seja, de ambas as partes – psicoterapêuta e paciente.


“Psicólogo é conselheiro”

Resposta errada, amigo! Conselho é apenas uma ferramenta na psicoterapia. Mas não é nem a principal. Tanto como terapeuta, quanto como paciente, percebo que o conselho deve ser usado apenas em momentos muito específicos, até porque é preciso saber aconselhar, caso contrário, corre-se o risco, aí sim, de incorrer em alguma espécie de manipulação.

Se a psicoterapia pretende a autonomia emocional do paciente, preza, então, muito mais para que o próprio paciente/protagonista do tratamento vá conquistando “seus próprios conselhos” (e quando isso acontece é algo muito bonito de acompanhar!).


“Meu psicólogo é Jesus!”

Que lindo! Realmente, nada nem ninguém se compara a Jesus! (meu coração até bate diferente escrevendo isso). E competir com Deus “não dá pé”, não, né!

Mas a Bíblia nos diz que Ele é nosso advogado e nem por isso, quando estamos com problemas legais, ficamos apenas na oração, certo?

E aqui vai uma opinião muito particular: esse tipo de afirmação tem mais a ver com resistências do que com fé. Resistência em mudar, em se expor pra um profissional, em reconhecer algumas coisas, em olhar pra si mesmo, em refazer seus caminhos... Que pena...


“Aconselhamento pastoral é igual à psicoterapia”.

Sentença prima-irmã da anterior.

Decida-se verdadeiramente por fazer psicoterapia, faça e depois me conta.

Obviamente que um pastor pode ter habilidades psicoterapêuticas e utiliza-las em seus aconselhamentos (é bem interessante quando isso acontece). Assim como psicólogos podem se utilizar, sempre que possível, de seu arsenal espiritual (minha eterna psicóloga faz isso, por exemplo). Mas psicoterapia é matéria bem diferente do aconselhamento espiritual por causa, dentre outras coisas, do lance científico, entende? Quando um psicólogo recebe alguém ele tem que se respaldar, enquanto escuta e conversa, em teoria da personalidade, psicopatologia, psicodinâmica, além das diretrizes de sua linha de atuação, pra citar alguns aspectos envolvidos.

Fomos criados alma, corpo e espírito, por isso psicoterapia e aconselhamento pastoral são coisas que não se excluem devido à importância que cada uma delas tem.


“O psicólogo me orientou a agir contrariamente a minha fé”.

Eu já escutei isso... E fico me perguntando, se isso realmente aconteceu e em que contexto foi, por que já passei por dois psicoterapeutas que não são cristãos e ambos trataram minha fé como algum muito positivo e saudável em minha vida, pois foi esse meu testemunho...

Nenhum profissional vai aconselhar contra algo que o paciente demonstra fazer-lhe bem... E, obviamente, um dos alicerces do trabalho psicoterapêutico é o respeito do psicólogo por seu paciente. Enfim! Dúvidas...


O sofisma: “Psicólogo (e Psiquiatra) é pra louco. Não sou louco. Logo, nunca vou preciso de um.”

Primeiramente, o que é loucura? Louco é o que vê coisas e escuta vozes? Louco é o cara que tem mil rituais pra abrir a porta de casa? Louco é o que acha que a CIA o persegue? Louco é o que não vê graça em nada na vida? Discussão acirrada essa, viu!

Principalmente com a luta anti-manicomial, o conceito de loucura é algo muito discutido.

De qualquer forma, se pensarmos em um diagnóstico grave em psicopatologia, tal como a esquizofrenia, e dissermos que apenas esse tipo de caso precisa de tratamento, é mais ou menos, como dizer que alguém só deve ir a um gastro, por exemplo, se estiver com câncer. Não é assim que o ser humano funciona. Não precisa chegar a extremos pra precisar de ajuda profissional.

Aliás, para fazer psicoterapia, não precisa nem ter um sofrimento psíquico. Alguém que queira se conhecer melhor é um excelente candidato a terapia!

Incluo nesse quesito a psiquiatria por ser uma categoria médica muito marginalizada pelo preconceito.


“O remédio do psiquiatra me dopou”.

Continuando na área psiquiátrica (que deve andar próxima a psicoterapêutica).

Emoções e pensamentos também são regulados fisiologicamente, pelo que é chamado de neurotransmissores. Por isso, alguns casos de enfermidade e sofrimento psíquico são descompensações físicas, sim. E que precisão de interação medicamentosa pra um bom tratamento.

Nos últimos anos, a tecnologia que desenvolve esses medicamentos avançou muito, melhorando sobremaneira seus efeitos.

Por isso, todo remédio, incluindo os psiquiátricos, quando receitados certeiramente, fazem bem!

Mas também não existe formula mágica da felicidade. Assim como a cara da gastrite precisa rever seus hábitos alimentares, caso contrário nunca vai melhorar assim o sofrimento emocional requer uma reformulação na vida do paciente.


Bom... Essas considerações não encerram o assunto, não respondem a todas as dúvidas, nem dissipam todas as fantasias. Mas, talvez, ajude a começar um belo papo entre a gente!

Afinal, vamos apenas pensar alto juntos... Vem comigo!